Morre o poeta, filósofo e acadêmico Antonio Cicero aos 79 anos

Antonio Cicero, poeta, compositor e filósofo, faleceu aos 79 anos nesta quarta-feira (23) após um procedimento de suicídio assistido na Associação Dignitas, na Suíça. Ele viajou para lá com seu companheiro, Marcelo Pies, e vinha planejando a ida há algum tempo, mantendo o assunto em segredo.

Em uma carta de despedida, Cicero compartilhou suas dificuldades com a doença de Alzheimer, mencionando a perda de memória e a incapacidade de reconhecer pessoas. Ele expressou seu desejo de morrer com dignidade, refletindo sobre sua vida e a importância dos amigos.

Na última quinta-feira, participou de uma sessão solene da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde leu um poema de Carlos Drummond. A ABL realizará uma Sessão da Saudade em sua homenagem, com as atividades dos dias seguinte canceladas.

Antonio Cicero, que se destacou como letrista de sua irmã, Marina Lima, deixa um legado significativo na literatura e na música brasileira, com obras como “O mundo desde o fim” e “Guardar”. Nascido no Rio de Janeiro em 1945, sua trajetória inclui a lecionação de filosofia e parcerias com grandes nomes da música. Ele será lembrado como um dos grandes poetas de sua geração.

A CARTA NA ÍNTEGRA

Queridos amigos,

Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia.

O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de

Alzheimer.

Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas

no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem.

Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas

pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi.

Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia.

Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu

mais gostava no mundo.

Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha

terrível situação.

A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico

até com vergonha de reencontrá-los.

Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que

quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo.

Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.

Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!

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