sexta-feira, 20/03/2026

Detran de MS destina 49 toneladas de papel em 2025 e transforma descarte em solidariedade

Material passa por processo rigoroso, com digitalização, controle legal e destinação social que beneficia o Cotolengo desde 2017

Por trás de caixas e caixas de documentos que deixam de ocupar espaço físico nas agências do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul), existe um trabalho silencioso, minucioso e cheio de responsabilidades. Só em 2025, cerca de 49,2 mil quilos de papel tiveram destinação adequada. O que poderia ser apenas descarte acaba ganhando outro significado, chegando até o Cotolengo Sul-Mato-Grossense e contribuindo diretamente com o trabalho da instituição.

Os números ajudam a dimensionar esse esforço. O levantamento mostra mais de 1 milhão de publicações de processos de CRV (Certificado de Registro de Veículo) em Diário Oficial, além de aproximadamente 380 mil processos recolhidos nas agências e mais de 1,1 milhão de processos recebidos do interior pela área técnica. Ao todo, 39 agências participaram desse processo no ano de 2025, que também envolveu a análise de documentos acumulados ao longo de anos e a eliminação de materiais que já não tinham mais utilidade administrativa.

Antes de chegar à reciclagem, tudo passa por um caminho cuidadoso. O trabalho começa nas agências, com a separação e organização dos documentos. Depois, esse material é recolhido, muitas vezes no interior do Estado, e segue para digitalização. Em seguida, ocorre a publicação em Diário Oficial, etapa que garante transparência e abre prazo para que qualquer interessado possa se manifestar.

Só depois disso os documentos seguem para a destinação final. Mesmo nesse momento, há acompanhamento. Segundo a servidora Priscila Rezende, integrante da comissão setorial de avaliação de documentos, a equipe do Detran-MS observa a trituração do material, garantindo que todo o processo aconteça com segurança “para que não ocorra vazamento de dados sensíveis”. 

É nesse ponto que o trabalho ganha um alcance ainda maior. Desde 2017, o material reciclado se transforma em recurso financeiro, e é repassado ao Cotolengo Sul-Mato-Grossense por meio de parceria. O valor é definido de acordo com o peso do material, e o repasse é feito diretamente pela empresa recicladora à instituição. À comissão cabe acompanhar e registrar todo esse fluxo, garantindo que ele ocorra de forma correta.

Essa parceria, que já dura mais de sete anos, tem impacto direto na rotina da instituição. Segundo o diretor-presidente, Padre Valdeci Marcolino, o apoio faz diferença concreta no atendimento.

“Essa parceria com o Detran-MS é muito importante para nós. As doações de papel reciclável geram um recurso significativo, que contribui diretamente para a manutenção da instituição, reformas e melhorias no atendimento. Também nos ajudam a garantir uma alimentação especial para as crianças atendidas. Ela fortalece o nosso trabalho, melhora a qualidade de vida das pessoas atendidas e reforça aquilo que acreditamos como missão, que é o cuidado e o acolhimento das pessoas com deficiência”, destaca. 

Essa destinação social não surgiu por acaso. Quando assumiu a coordenação da comissão, Wanderluiz passou a tratar como prioridade a transparência em todo o processo, inclusive no destino dos recursos gerados a partir da reciclagem. “A gente sempre buscou dar transparência em todas as etapas, inclusive na destinação desses materiais. A doação é feita em kilos de papel”, afirma.


Ao longo dos anos, o cenário também começou a mudar com o avanço da digitalização. Muitos processos deixaram de existir no papel, especialmente em áreas que hoje funcionam de forma eletrônica como o CRLV (Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo), por exemplo. Isso reduz a produção de novos documentos físicos, mas não elimina a necessidade de lidar com o que foi acumulado por décadas e atualmente se encontra numa fase de transição. 

“Quando começamos, o volume de papel era muito grande. Hoje já dá pra perceber uma mudança com a digitalização, mas ainda existe um trabalho importante com o que foi acumulado ao longo dos anos”, destaca.

Esse trabalho acontece em um momento de transição importante, em que o papel vai, aos poucos, dando lugar ao digital. Muitos processos já nascem eletrônicos, reduzindo a necessidade de impressão e armazenamento físico. Ao mesmo tempo, iniciativas como essa mostram como é possível lidar de forma responsável com o que ainda existe em papel. Esse movimento está alinhado aos pilares verde e digital da gestão do governador Eduardo Riedel, que busca modernizar os serviços públicos sem perder de vista a sustentabilidade e o uso consciente dos recursos.

E é justamente nesse acervo antigo que aparecem histórias curiosas. Durante o trabalho, a equipe se deparou com documentos muito antigos, alguns já deteriorados, outros que ajudavam a contar a trajetória de municípios e da própria estrutura do Estado, entre eles o Registro de Cocheiros (condutores de carruagens) do anos de 1949 à 1958, fase em que  a figura do cocheiro estava em pleno processo de extinção, sendo substituída pelos motoristas de automóveis.

“A gente se deparou com muitos documentos antigos, coisas que contam a história do Estado. Era muito material guardado. O registro dos cocheiros e o registro das CNHs da época, nós guardamos e manuseamos com maior cuidado”. 

Servidor de carreira, Wanderluiz soma 42 anos de atuação no Detran-MS, sendo uma década dedicada à coordenação da Comissão Setorial de Avaliação de Documentos. Nesse período, acompanhou de perto a mudança de uma realidade marcada pelo excesso de papel para um modelo mais moderno e organizado. Há poucos dias, deixou a função com a sensação de dever cumprido, segundo ele, para abrir espaço para que outras pessoas deem continuidade a esse trabalho.

No fim, o que poderia ser apenas o destino de documentos sem uso revela algo maior. Existe cuidado, existe responsabilidade e existe também a possibilidade de transformar aquilo que seria descartado em algo que faz diferença na vida de outras pessoas.

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