Mais de mil peças de inverno confeccionadas em penitenciária são entregues ao Hospital São Julião

Mais de mil gestos de solidariedade saíram da Penitenciária Estadual Masculina de Regime Fechado da Gameleira II, em Campo Grande, para aquecer pacientes no Hospital São Julião. Ao todo, 1.019 peças de inverno — entre bermudas, camisetas, calças, blusas, casacos, almofadas e mini-travesseiros — foram confeccionadas por reeducandos da unidade e entregues oficialmente à instituição hospitalar, em uma ação que alia ressocialização com empatia e compromisso social.

A oficina da Gameleira II não costura apenas roupas, mas novas perspectivas. Os internos aprendem um ofício, conquistam remição de pena e, principalmente, resgatam sua autoestima e papel social.

A iniciativa é uma das frentes de retribuição social da Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) e também integra o programa Malharia Social, da Senappen (Secretaria Nacional de Políticas Penais), que doou máquinas de costura para unidades prisionais de Mato Grosso do Sul.

Parceria que aquece vidas

As peças foram produzidas ao longo de dois meses, em uma oficina que hoje representa muito mais do que um espaço de costura: é lugar de recomeços. “Essa ação demonstra como o trabalho prisional pode gerar transformações reais na vida de quem está privado de liberdade — e também na de quem está fora dos muros, mas enfrenta outras batalhas, como a luta contra doenças”, comentou a diretora de Assistência Penitenciária da AgepenMaria de Lourdes Delgado Alves, durante a entrega dos itens de inverno esta semana.

Para a dirigente, a produção dentro do presídio simboliza o impacto positivo da união entre políticas públicas e projetos voltados à ressocialização. “Graças aos esforços das nossas equipes e das instituições envolvidas, conseguimos trazer programas que ressignificam a privação de liberdade com capacitação e dignidade”, destacou.

Representando a Coordenação de Educação, Cultura e Esporte da Senappen no ato, policial penal federal Carlos André dos Santos Pereira, reforçou o papel do programa. “A Malharia Social seleciona quem quer a mudança. Nem todos conseguem estar aqui, então quem está, merece. Vocês são parte da sociedade e têm o direito de recomeçar. O trabalho de vocês é visto e reconhecido como essencial”, disse.

Cada item foi cuidadosamente elaborado para proporcionar conforto e calor aos pacientes do Hospital São Julião, referência em atendimento de doenças como hanseníase e tuberculose. A coordenadora de Relações Institucionais da entidade, Cátia Almeida, emocionou-se durante a solenidade de entrega: “Esse trabalho de vocês tem um valor imenso. É empatia em forma de tecido. Vocês estão ajudando alguém a ajudar alguém. E isso mobiliza toda a sociedade”, agradeceu. “A qualidade do que vocês fazem é reconhecida por todos que conhecem esse projeto”, complementou.

O hospital fornece os insumos, enquanto a agência penitenciária entra com a mão de obra e o maquinário, permitindo que o trabalho prisional beneficie diretamente a população. Essa já é a segunda entrega realizada pela penitenciária ao São Julião. No início deste ano, mais de 600 itens também foram produzidos dentro da parceria.

Tecendo cidadania

A produção contou com a dedicação de quatro internos que atuam diretamente na oficina de costura da penitenciária. Um deles é P. P. L., de 41 anos, que há quase dois anos coordena os trabalhos no setor. Sem nenhuma experiência anterior na área, foi dentro da prisão que aprendeu tudo — do corte à finalização das peças. Hoje, ele já soma 10 anos de experiência com costura em diferentes unidades prisionais e comemora as conquistas pessoais: “Já me formei em Gestão Imobiliária e agora estou concluindo Administração. Tudo dentro do sistema”, revelou.

Para o reeducando, mais que um trabalho, a atividade é uma forma de ajudar o próximo: “É gratificante saber que algo feito por nós pode levar dignidade a quem precisa”, afirmou.

O sentimento é compartilhado por J. S., de 59 anos, outro interno envolvido na produção. Há apenas três meses na oficina, ele relembra as origens: “Minha mãe era costureira, talvez tenha herdado algo dela. Aqui, estou aprendendo tudo. E faço com gosto, porque é uma obrigação também moral”, disse.

Também participaram da entrega das peças na Gameleira II, o coordenador do Núcleo do Sistema Penitenciário da Defensoria Pública de MS, defensor Maurício Augusto Barbosa; a chefe da Divisão do Trabalho da Agepen, Elaine Alencar; a chefe da Divisão de Assistência Educacional, Rita de Cássia Argolo Fonseca; a coordenadora do setor de Conservadoria do Hospital São Julião, Fabiana Farias; o diretor da penitenciária, Evandro Mota; e o policial penal federal Sidney Alex Silva dos Santos.

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