Entrevista com Marcelo Miglioli – secretário de obras de Campo Grande

“Campo Grande só vai mudar com coragem para decisões difíceis”, afirma Marcelo Miglioli

Marcelo Miglioli é engenheiro civil, advogado, empresário e político, ocupa atualmente o cargo de secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (SISEP) de Campo Grande. Com passagem pela iniciativa privada e atuação na gestão pública, Miglioli está no centro das principais decisões relacionadas a obras, pavimentação, zeladoria urbana e equilíbrio fiscal da Capital.
Em entrevista exclusiva à Página Amarela da Boca do Povo, o secretário fala sobre ajustes fiscais, rebate críticas à política tributária, aponta o fim de um modelo que classifica como “paternalista” e anuncia o que define como o maior programa de pavimentação da história de Campo Grande.

*Por Josimar Palácio


BOCA DO POVO: Secretário, o início do ano foi marcado por críticas à gestão, especialmente na área de impostos. Houve aumento do IPTU?
MIGLIOLI:
Não houve aumento, houve ajuste. Campo Grande perdeu metade da arrecadação de ICMS nos últimos anos, saindo de 23% para 11,5%. Além disso, a cidade funcionava com o chamado “caixa de janeiro”: arrecadava bem no início do ano e praticamente parava no segundo semestre. Isso não é sustentável. Nenhuma empresa funciona assim.

BOCA: A redução do desconto de 20% no pagamento à vista gerou grande repercussão. Por que foi necessária?
MIGLIOLI:
Hoje, apenas duas capitais brasileiras mantêm desconto de 20%. A maioria trabalha com percentuais bem menores. Esse ajuste foi necessário para equilibrar o fluxo de caixa e garantir recursos ao longo de todo o ano, especialmente para serviços contínuos como zeladoria, tapa-buraco e manutenção urbana.

BOCA: A falta de zeladoria foi uma das principais queixas da população em 2025.
MIGLIOLI:
É uma crítica justa. A cidade não recebeu a zeladoria que merece porque não havia recurso. Manutenção urbana exige dinheiro. Hoje, a Secretaria de Obras é totalmente aberta à fiscalização. Qualquer cidadão pode acessar contratos, números e medições.

BOCA: A taxa do lixo também foi alvo de questionamentos.
MIGLIOLI:
Gastamos cerca de R$ 130 milhões por ano com a coleta de lixo e arrecadávamos apenas R$ 42 milhões. Essa conta não fecha. Não existe superfaturamento, mas há um desequilíbrio histórico. Esse modelo paternalista levou Campo Grande à beira do colapso financeiro.

BOCA: Quais são os principais investimentos previstos para este ano?
MIGLIOLI:
Estamos lançando um dos maiores programas de obras da história da cidade. Teremos pavimentação e drenagem em quase 40 bairros, além de um amplo programa de recapeamento em todas as sete regiões de Campo Grande. Os processos licitatórios já foram iniciados.

BOCA: O tapa-buraco continuará sendo utilizado?
MIGLIOLI:
Sim. Enquanto não houver um programa estruturado de recuperação funcional do pavimento, o tapa-buraco é um mal necessário. No início da gestão, houve a ideia de abandoná-lo, e a cidade quase colapsou. Hoje há consenso: tapa-buraco é prioridade, mas acompanhado de solução definitiva.

BOCA: Campo Grande foi pioneira nesse modelo de licitação para recapeamento?
MIGLIOLI:
Sim. Após a aprovação de uma lei no Senado, liderada pela senadora Tereza Cristina, tornou-se possível captar recursos federais para recapeamento. Campo Grande foi a primeira capital do Brasil a lançar licitação nesse formato, com contratos ativos para toda a malha viária.

BOCA: A gestão enfrenta desgaste político e críticas constantes. Como o senhor avalia esse cenário?
MIGLIOLI:
Críticas profissionais são legítimas e necessárias. O problema é quando se tornam pessoais. Existe uma frustração generalizada na cidade, isso é fato. Mas Campo Grande só vai sair dessa situação se houver coragem para tomar decisões difíceis e, muitas vezes, impopulares.

BOCA: O que pode convencer a população de que a administração está no caminho certo?
MIGLIOLI:
Entrega. Apenas entrega. Melhorar a zeladoria, iniciar e concluir obras, recuperar o pavimento, avançar na saúde e na educação. Sem entrega, não há convencimento. A população precisa sentir o retorno do esforço que está fazendo.

BOCA: É possível ver uma Campo Grande diferente ainda neste mandato?
MIGLIOLI:
Sim. Ainda não será a cidade ideal, mas será uma cidade muito diferente. Com obras em andamento, planejamento real e equilíbrio fiscal. Campo Grande foi empurrada para frente por muitos anos. Agora estamos enfrentando os problemas.

BOCA: Algo mais a acrescentar?
MIGLIOLI:
Agradeço a oportunidade de falar diretamente com o povo de Campo Grande e reforço que a Secretaria está de portas abertas para a população. Muito obrigado.

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