Parece conto de fadas, mas os pombos correios realmente existiram. E ainda existem. Durante décadas, cientistas ficaram intrigados em saber como é que essas pequenas aves se localizavam para cumprir essa função. Por muito tempo eles pesquisaram os locais mais óbvios do corpo das aves, como os olhos, o ouvido interno e o bico para tentar encontrar onde se encontra a capacidade de detectar o campo magnético da Terra dessas aves.

Mas um estudo recém-publicado na revista Science, porém aponta que o segredo se encontra em um lugar inusitado: para um órgão inesperado: o fígado. Segundo os pesquisadores, a navegação magnética dos pombos-correio parece depender de células especializadas, os macrófagos, que estão presentes nesse órgão, oferecendo uma possível resposta para uma questão que intriga a ciência há mais de um século. A função dos macrófagos é decompor glóbulos vermelhos envelhecidos e acumular ferro durante esse processo. E pesquisadores da Universidade de Bonn encontraram grandes concentrações desses macrófagos carregados de ferro no tecido hepático dos pombos, posicionados junto a fibras nervosas.
Para investigar a ideia, a equipe treinou 34 pombos em uma rota de 19 quilômetros pelos Alpes alemães e, posteriormente, desativou experimentalmente os macrófagos do fígado em parte das aves. Os resultados mostraram que, em dias nublados, os pombos submetidos ao procedimento não conseguiam retornar para casa. Já em dias de céu aberto, eles mantinham a capacidade de orientação, utilizando a posição do Sol como referência. Os pesquisadores concluíram que o fígado parece responder pela navegação magnética, enquanto os sinais visuais do céu complementam o processo.
A descoberta sugere que os pombos utilizam duas “bússolas” distintas para se orientar. Para os pesquisadores Simon Spiro e Hal Drakesmith, que comentaram o estudo na Science, as duas teorias podem estar corretas em contextos diferentes. “Talvez um processo domine a navegação de longa distância, enquanto outro seja usado para a localização de destinos mais específicos”, escrevem. Ainda não se sabe se espécies como tartarugas marinhas, baleias-cinzentas e lagostas espinhosas utilizam o mesmo sistema baseado em ferro e macrófagos. Os cientistas também precisam identificar quais vias nervosas transportam o sinal do fígado até o cérebro e quais regiões cerebrais processam essa informação.
