A antiga reflexão sobre desejos ajuda a entender como consumo, entretenimento e disputa política podem ocupar o espaço da reflexão
A frase atribuída a Platão segundo a qual a pobreza nasce da multiplicação dos desejos, e não simplesmente da redução da riqueza, atravessou os séculos porque toca em uma questão ainda atual: quanto mais se deseja, maior pode ser a sensação de que nunca é suficiente. A formulação literal, porém, não possui fonte primária amplamente reconhecida nas obras de Platão.
A reflexão ganha outro contorno quando chega à política. Uma sociedade permanentemente estimulada a consumir, desejar e se distrair pode encontrar no famoso “pão e circo” uma metáfora para momentos em que necessidades concretas são acompanhadas por entretenimento constante. Não significa que todo entretenimento seja manipulação, mas que a distração pode, em determinadas circunstâncias, aliviar a insatisfação sem necessariamente resolver suas causas.
Platão já relacionava desejos ilimitados à pobreza da própria alma. Em A República, o homem dominado por desejos que não consegue satisfazer aparece como verdadeiramente pobre, mesmo cercado de poder e recursos. Na política contemporânea, a questão continua sendo menos quem promete mais e mais como o cidadão avalia aquilo que recebe, aquilo que deseja e aquilo que realmente necessita.
E aí aparece uma palavra curiosa: “idiota”. No grego antigo, idiōtēs designava originalmente o indivíduo privado, aquele que não ocupava cargo público, em oposição a quem participava dos assuntos do Estado. O sentido de “ignorante” ou “tolo” surgiu posteriormente. Em Dostoiévski, O Idiota acrescenta outra camada: o príncipe Míchkin é chamado de idiota justamente porque sua bondade e inocência parecem inadequadas diante de uma sociedade marcada por dinheiro, vaidade e interesses.
No fim, Platão e Dostoiévski se encontram numa pergunta incômoda: quem é realmente ingênuo — aquele que conserva princípios ou aquele que aceita qualquer espetáculo em troca de não olhar para os próprios problemas? Entre desejo, consumo, política e entretenimento, talvez o maior risco não seja ser chamado de “idiota”, mas deixar de pensar por conta própria.
