Com o objetivo de transformar o atendimento hospitalar em um porto seguro contra a violência de gênero, o Hospital Cassems de Corumbá reforça sua atuação na rede de proteção às mulheres em situação de vulnerabilidade. A instituição agora integra oficialmente a comissão multissetorial do município, unindo esforços com o Ministério Público, a Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM), o Conselho Tutelar e diversas secretarias municipais.
A iniciativa busca romper o ciclo da violência que, muitas vezes, chega às unidades de saúde de forma silenciosa e “mascarada”. Para a Cassems, a participação no grupo não é apenas administrativa, mas uma extensão do cuidado com a vida.
Para o gerente da unidade, Pedro Henrique Fernandes , a eficácia do combate à violência reside na capacidade de resposta rápida e coordenada entre os diferentes setores da sociedade. “A união entre instituições permite uma atuação integrada e complementar. Enquanto o Ministério Público atua na esfera legal, a Cassems agrega o olhar da saúde, especialmente na prevenção e no acolhimento. Essa articulação amplia o alcance das ações e possibilita respostas que dificilmente seriam alcançadas por iniciativas isoladas”, destaca o gestor.
O desafio de romper o silêncio
Na linha de frente, a atuação do Serviço Social tem sido determinante para identificar casos que, à primeira vista, parecem acidentes domésticos ou crises de ansiedade. A assistente social da unidade, Paula Kelen , explica que a proximidade física do setor de acolhimento com o Pronto Socorro foi uma decisão estratégica para garantir a segurança das vítimas. “Muitas vezes a violência vem velada. Nosso olhar é voltado para investigar sinais quando a mulher está sozinha. Caso a violência seja detectada, nós a instruímos sobre os serviços gratuitos do município, como o CRAM e o Ministério Público, para que ela tenha um respaldo onde não precise se expor”, pontua Paula.
Além do suporte social, o acolhimento psicológico é o que sustenta a mulher na decisão de romper o ciclo de abusos. A psicóloga do Hospital Cassems de Corumbá, Thais de Souza Pinto, explica que a violência emocional é uma barreira invisível, mas extremamente resistente. “Do ponto de vista psicológico, um dos maiores desafios é o chamado ‘Ciclo da Violência’. Ele alterna momentos de agressão com demonstrações de afeto, o que gera uma confusão emocional e a falsa esperança de mudança. O medo e a baixa autoestima fazem com que a mulher se sinta presa. Por isso, nosso papel na comissão é oferecer uma escuta segura para que ela reconheça esses sinais de controle e isolamento antes que a situação chegue ao extremo, fortalecendo sua autonomia para buscar ajuda”, pontua Thais.
A participação da Cassems na comissão reforça o papel da instituição como um agente de transformação social em Corumbá. Ao alinhar o suporte técnico com o acolhimento humanizado, o hospital se coloca como uma peça fundamental para garantir que a liberdade das mulheres não seja mais cobrada com suas próprias vidas. “É uma batalha de todos nós. Precisamos estar atentos a qualquer sinal, porque cada pessoa que entra e não recebe esse olhar atento, pode ser uma vida que perdemos. O hospital está de portas abertas para essa luta”, finaliza a assistente social.
