Mortes de bebês no HU chega a 40; dobro do limite da OMS

Valéria Araújo

Sobe para 40 o número de mortes de bebês no Hospital Universitário de Dourados. O número é o dobro do que preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS), órgão vinculado a Organização das Nações Unidas (ONU), que preconiza até 10 mortes para cada 1 mil nascimentos. Neste caso, como o Hospital registrou 2.090 nascimentos, teria que registrar um limite de 20 óbitos.

No entanto, segundo a Comissão de Acompanhamento de Óbitos Hospitalares, este número chega a 40 mortes. Tanto os nascimentos, como as mortes são calculadas por atendimentos de Dourados e região, concentradas no Hospital Universitário. Destes 40 óbitos fetais, 24 são de Dourados e 16 são da região que alcança 34 municípios atendidos pelo HU.

De acordo com relatório da Comissão de Acompanhamento de Óbitos, o mês de janeiro deste ano foi o que registrou mais mortes. Foram 8 naquele mês, 3 em fevereiro, 7 em março, 3 em abril, 6 em maio, em junho não ocorreram mortes, em julho foram 5, em agosto foram 3 e setembro foram contabilizados 2 casos.

Para o Conselho Municipal de Saúde de Dourados, os números podem ser ainda maiores dos que foram registrados. “As mortes dos bebês gêmeos na semana passada em Dourados, por exemplo, foram considera-dos abortos e não entraram para a estatística. No entanto, neste caso, os pais reclamam de erro médico e mal atendimento no HU”, explica.

Berenice diz que o que mais se busca é um atendi-mento humanizado por parte dos profissionais. Ela diz que são vários os relatos sobre irregularidades no hospital, como violência obstétrica e erros médicos dentro do HU.

Além disso, segundo ela, o Conselho não consegue atuar dentro do Hospital porque os conse-lheiros acabam sendo barrados na tentativa de ajudar as pacientes que buscam ajuda.

“As gestantes chegam com fortes dores e alguns médicos pedem para elas voltarem para casa. Em alguns casos a mãe reclama que não tem como fazer o parto natural e médicos insistem neste procedimento, retardando o nascimento do bebê e colocando ele em risco, segundo as denúncias das gestantes”, destaca, observando que o Hospital recebe recursos da Rede Cegonha que, dentre outros, prevê o parto humanizado e permite a mãe escolher a modalidade do parto. Berenice também observa que há situações de ter um médico residente, sem a presença de um profissional.

“O HU aceitou os valores previstos no convênio da Prefeitura. Agora o HU vem dizer que não dá o dinheiro? Me disseram, dentro do Hospital que a maternidade é lugar de morrer gente, o que é um absurdo. Será que se fosse um filho de alguém do Hospital iriam dizer isso? Há 7 anos o atendimento do HU só vem regredindo! Nós estamos defendendo aqueles que não puderam ter este atendimento de qualidade e que agora amargam a dor de perder um filho. O conselho está em defesa da população”.

MPF

Durante audiência na Casa dos Conselhos de Dourados no início da semana passada, o procurador Federal Manoel de Souza Mendes disse que o MPF abrirá procedimento de investiga-ção junto com a Polícia Federal para investigar as mortes de bebês, assim que os familiares formalizarem as denúncias.

Convênio revisado

Com as mortes dos 40 bebês, o HU poderá ter seu convênio totalmente revisado com a Prefeitura e, sem ter outro hospital para oferecer serviços de maternidade, o contrato será prorrogado com o município por mais seis meses na prestação de serviços para o Sistema Único de Saúde. É o que deliberou na semana passada o Conselho Municipal de Saúde que discutiu a morte destes bebês e a possibilidade da maternidade ou até mesmo o hospital voltarem a ser geridos pela Prefeitura, como tentativa de melhorar a qualidade do atendimento.

Conforme divulgou Douradosagora, enquanto o HU alega taxa 160{d124abb9778216420301f7a7fdee54f2d809ca471a8d69088da1a3e9d609e3df} na ocupação da maternidade, ou seja, atende mais do que o contratualizado e sofre com a superlotação e a falta de mais de R$ 5 milhões que não recebeu da Prefeitura de Dourados, o secretário Sebastião Nogueira alega que este ano o município deixou de receber do Governo do Estado mais de R$ 7.6 milhões, repasses que além de destinados ao HU, seriam para custear outros serviços.

A diretora do HU Mariana Croda explicou recentemente que o Hospital serve para atender serviços de alta complexidade e avaliou que se a Prefeitura pudesse retomar os atendimentos dos partos de baixa complexidade seria um fator importante para diminuir as taxas de superlotação. Segundo ela, o único serviço de porta aberta no HU-UFGD é a Obstetrícia, não havendo possibilidade de recusa de atendimentos, uma vez que não há para onde referenciar as pacientes. Diz que casos recentemente denunciados estão sob análise.

Familiares

Muito emocionados, familiares que passaram pela morte de bebês no HU, clamaram por melhora no atendimento durante audiência na semana passada na Casa dos Conselhos. Hallinno de Oliveira é pai de um bebê que morreu no HU há 15 dias. Disse que a esposa e ele chegaram na madrugada de sábado (12).

A esposa Tatiane estava com fortes dores e perdendo muito liquido. “Um auxiliar do médico fez exame de toque e do coraçãozinho e estava tudo normal e pediu para ir embora e voltasse quando a dor fosse mais intensa. Domingo pela manhã, às 6h, minha esposa já não aguentava de dor. “Foram escutar o coraçãozinho do bebê e não conseguiram. Levaram minha esposa para o ultrassom. Me chamaram e avisaram que a criança já havia morrido.

O médico não teve um mínimo de compaixão de preparar minha esposa para dar a notícia. Poderiam ter olhado com mais cuidado minha esposa e nosso filho e isso não ocorreu. Minha esposa está abalada hoje e só chora. Nosso filho não volta, mas tomara que o atendimento seja melhorado para que casos como este não se repitam”, destaca.

Auditoria

Na semana passada, o deputado federal Geraldo Resende informou, via assessoria, que está solicitando uma auditoria geral do Ministério da Saúde no HU para apurar as causas das mortes, repasses e atendimentos dos profissionais.

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