Luís Eduardo Costa, “Dudu” – Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul e secretário da SEMADUR

NOVO OLHAR SOBRE A CIDADE

LUÍS EDUARDO COSTA: Arquiteto e Urbanista, 47 anos, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul, diretor da Federação Nacional dos Arquitetos, secretário da SEMADUR. Afeto à necessidade da desburocratização e implantação de softwares que garantam eficiência dos serviços. Dudu foi entrevistado no programa “BOCA DO POVO/FM-101.9” acerca do seu novo olhar da nossa Capital e o resultado foi essa belíssima entrevista que ganhou nossa última Página Amarela deste ano.

*Por B de Paula Filho

Boca: Falando sobre arquitetura e urbanismo, vamos começar por Oscar Niemeyer?
“DUDU” COSTA – “Ele é o ‘ponto de partida’ da arquitetura moderna brasileira. Imaginem que ele instituiu conceitos e curvas nas décadas de 50, 60, 70. Concebeu coisas diferentes para o preenchimento de espaços de formas diferentes. Criatividade máxima e arrojada, desafiando toda a tecnologia da engenharia da época. Reconhecimento mundial que precisa ser exaltado, estudado e respeitado”.

Boca: Como vai o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do qual você é presidente?
“DUDU” COSTA – “Nosso Conselho tem 7 anos de existência. Nascemos, depois de 35 anos, no último dia útil do governo Lula (31/12/2010). Com nosso próprio Conselho, ganhamos liberdade de posicionamento perante o país sobre uma série de questões, algumas ainda por serem discutidas, entre as quais estão o projeto de planejamento de forma mais responsável. Paga-se alto por não conseguir projetar corretamente.
Este ano foi o primeiro da minha gestão, e já abordamos várias questões importantes, como o debate em torno da Lei 11.888 (ATHIS), que prevê assistência técnica gratuita para famílias de baixa renda, realizamos o primeiro Fórum sobre esse tema em agosto, apresentando profissionais de várias regiões do país que realizam este trabalho. Começamos também um debate sobre a tabela de honorários do arquiteto e urbanista, buscando regionalizar de acordo com as necessidades dos profissionais e da população sul-mato-grossense. Os trabalhos das comissões também foram muito satisfatórios. Por meio do Colegiado de Entidades Estaduais de Arquitetura e Urbanismo, entregamos para os candidatos ao Governo do Estado uma Carta Aberta dos arquitetos e urbanistas lançada nacionalmente, com um conteúdo muito rico para as gestões das cidades.

Boca: E como fica a profissão de Urbanista?
“DUDU” COSTA – “Não existe. Tem Arquiteto e Urbanista, porque não é possível dissociar aquilo que se projeta do resto da cidade. Existe o velho conceito de projetar, fazendo arruamento e praças, mas habitação é muito mais que isso. Há que se pensar no conforto das pessoas, lazer, comércios, linhas de ônibus, e não riscar simplesmente uma praça com casinhas à sua volta, transformando os bairros em ‘depósitos’ de pessoas”.

Boca: Nos EUA, por exemplo, se constroem bairros com escola, Centro comercial, etc. Por que não aplicamos isso aqui?
“DUDU” COSTA – “Porque aqui se privilegia primeiro a estrutura e depois as pessoas. Coloca-se as pessoas em um canto e geram demanda posterior como: linha de ônibus, escolas, creches. Arquitetura e urbanismo não é algo elitizado. É qualidade de vida proporcionada por um lugar planejado, organizado e que nem por isso precisa custar mais caro. É exatamente sobre isso que trata a Nova Agenda Urbana, uma pauta extraída da Habitat, uma conferência mundial da ONU, com muitos países participantes, que traz diretrizes para transformar as cidades em ambientes sustentáveis no âmbito social, econômico e ambiental. E isso é possível se mais profissionais de arquitetura e urbanismo forem chamados para participar ativamente da gestão das cidades, dentro das secretarias, prefeituras e governos estaduais. Segundo a ONU, atualmente as cidades ocupam aproximadamente apenas 2% do território da Terra, mas concentram 54,5% da população mundial, ou 4 bilhões de pessoas.

Boca: E a polêmica do Plano diretor?
“DUDU” COSTA – “Natural que isso aconteça, porque ali estão as diretrizes de crescimento e desenvolvimento da cidade e suas regras. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo participa do Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urbanização (CMDU), dando sua contribuição. Sempre o ‘PD’ irá gerar controvérsias, mas é necessário para que nossa Capital cresça respaldada em projetos que trarão um ‘orçamento’ mais barato, colocando mais pessoas aonde já se tenha estrutura. O Plano Diretor segue uma métrica para que isso aconteça. Nossas questões ambientais estão muito mais bem definidas, e uma cidade com 33 córregos precisa de um projeto muito bem elaborado para reger a vida em comunidade”.

Boca: Bairros criados sem qualquer aparelhamento. Mesmo assim, está havendo uma descentralização do comércio…
“DUDU” COSTA – “A descentralização comercial é natural das cidades. Nossa mobilidade está ficando mais complicada, favorecendo o surgimento de ‘polos’ por onde o comércio – padaria, açougue, supermercados – se estrutura. A descentralização não reduz a importância do comércio da área central, mas o centro da nossa Capital precisa ser reinventado e reocupado. Espaços vazios cedem lugar à marginalidade, à prostituição e à desvalorização de imóveis”.

Boca: O que está faltando em Campo Grande?
“DUDU” COSTA – “Somos uma cidade muito bem projetada, mas com pouco respeito por ela. Viemos e estão vindo pessoas para ocupar o mesmo lugar, mas quando jogamos um lixo num terreno baldio, por exemplo, falta-nos a consciência de que estamos prejudicando alguém e a nós mesmos. A questão da ‘depredação do espaço público’ e outras mazelas significa que precisamos nos policiar, um em favor do outro, afinal, essa é a nossa cidade, de paisagens maravilhosas; de um ‘por de Sol’ exuberante; coisas que nos foram dadas gratuitamente pela Natureza e que temos a obrigação de preservar para a nossa e para futuras gerações”.

Boca: Por que nossas árvores são frágeis?
“DUDU” COSTA – “Existe no site da SEMADUR um “Manual de Arborização”. Através dele qualquer pessoa terá a orientação segura do tipo de árvore que poderá plantar por região. Cada ‘bacia’ tem seu tipo de árvore que nela melhor se adequa ao ser plantada. Isso foi minuciosamente estudado, mas as pessoas, na maioria das vezes, não acessam essas informações”.

Boca: Quais as consequências provocadas pela plantação de árvores exóticas?
“DUDU” COSTA – “Não se deve plantar nada que seja exótico. O Plano Diretor de Arborização Urbana, de 2011, já alertava para os problemas que a arborização exótica poderia gerar. A árvore que não seja do cerrado, por exemplo, como a leucena, que está em vários pontos da nossa cidade, produz uma quantidade de sementes que acabam se dispersando e dando grande trabalho para sua contenção. Precisamos pensar numa arborização de eixo verde que atenda também as espécies de animais que temos aqui”.

Boca: Dudu, muito obrigado pela sua participação aqui no programa.
“DUDU” COSTA – “Quero agradecer a oportunidade em nome de todos os arquitetos de discutir a cidade, a habitação, a gestão pública, assuntos que falam diretamente da nossa qualidade de vida e da vida da nossa cidade. Parabéns à DIFUSORA/FM-101.9 e à revista BOCA DO POVO. Foi um prazer estar com vocês. Estaremos sempre à disposição no CAU/MS e na SEMADUR para qualquer informação que se faça necessária. Muito obrigado’.

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