EXCLUSIVO: Ex-senador DELCÍDIO AMARAL (PTC-MS)

REENTRANDO NA ATMOSFERA POLÍTICA

“Estou de alma lavada!”


Delcídio do Amaral Gómez (63):
Corumbaense, formado em Engenharia Elétrica. Foi diretor da Shell na Holanda. Em 1991 retornou ao Brasil atuando como diretor da Eletrosul. Passou pela Secretaria Executiva do Ministério de Minas e Energia e pelo Conselho de Administração da Vale do Rio Doce. Chegou a ministro de Minas e Energia em 1994. Foi também diretor de Gás e Energia na Petrobras. Em 2001 foi secretário de Infraestrutura e Habitação do Governo do Estado e em 2002 se elegeu a senador pelo PT. Em 2006 – como senador – candidatou-se a governador, mas foi derrotado ainda, no primeiro turno, por André Puccinelli (PMDB). Em 2010, reelegeu-se ao Senado com mais de 800 mil votos. Trouxe mais de R$ 2 bilhões em emendar para o MS, sendo cassado injustamente por uma acusação tida pela Justiça Federal como “absurda”. Entrevistado com EXCLUSIVIDADE pela FM-101.9 na sexta-feira (27/07), Delcídio quebrou o silêncio de quase 2,5 anos, reentrando na atmosfera política novamente.

*Por B. de Paula Filho

Boca: Roubaram seu cargo e ainda o obrigaram ao silêncio. Como foi passar por tudo isso?
DELCÍDIO – “Uma arquitetura jurídica- sacana e velhaca- foi montada pela ‘Lava Jato’ para chegar ao Congresso Nacional e por ser líder do governo e uma figura emblemática virei o ‘bode expiatório’. Depois a “coisa” não parou mais, avançando Senado adentro a ponto de alcançar a 23 Senadores, posteriormente entraram pela Câmara dos Deputados e vieram os desdobramentos desse primeiro movimento, até que a classe política entendeu o erro que cometeram com a minha cassação. Renan Calheiros, presidente do Senado na época, gravou dias atrás um vídeo reconhecendo que a minha cassação foi um grande erro. É importante registar esses fatos decorrentes dessa primeira iniciativa onde eu fui a vítima. Os fatos conduziram a coisas muito mais complicadas como: dinheiro em mala, assessor indo buscar dinheiro em mala com a premissa de arrumar alguém pra matar antes de delatar, etc. As histórias desaguam no caso do senador Aécio Neves. Eles pensaram a princípio: “Tira o Delcídio pra gente ficar” e depois que me cassaram o pensamento mudou para: “Deixa o Aécio, pra gente não ir também’ ”.

Boca: Foi uma prisão com cassação equivocadas…
DELCÍDIO – “Estruturaram uma acusação descabida. Usaram: gravação ilegal e sem autorização judicial gravada por um terceiro. Esse tipo de gravação só tem valor jurídico se for para alguém se autodefender e não era esse o meu caso. Bernardo Cerveró, filho do Nestor Cerveró, fez o jogo que queriam, tanto é que a decisão do juiz Ricardo Leite mostrou a minha boa-fé. Fizeram uma troca para criar a tal ‘obstrução da justiça’. No depoimento de Nestor Cerveró ele diz textualmente que ‘nunca houve nenhuma alteração da sua colaboração premiada’. Fui preso por ‘obstrução de justiça’ de um crime que não aconteceu e por uma gravação ilegal. Digo mais: Como parlamentar só pode ser preso por crime inafiançável (Estupro, assassinato, tráfico de drogas, sequestro), remontaram a arquitetura jurídica para caracterizar ‘organização criminosa’. Tinham, para caracterizar achar uma quarta pessoa e acharam o André Esteves, um banqueiro conhecido que acabou preso. No meio do processo caiu a acusação de ‘organização criminosa’ porque saiu o André Esteves. Então pergunto: Por que fui preso em flagrante?”.

Boca: A sentença absolvitória foi claríssima e indiscutível…
DELCÍDIO – “Resumi tudo para explicar a clareza do pensamento e da decisão do juiz Ricardo Leite. Ele foi preciso, cirúrgico e claríssimo, tanto que não houve qualquer crítica à decisão. Ele foi de uma ‘clareza solar’. E vamos mais longe?… Quem foi o grande estruturador dessa operação foi o ex-procurador Marcelo Miller!… Fui o primeiro a ser gravado. Depois veio o Sérgio Machado e posteriormente a JBS. Ele foi grande mentor dessa desastrada operação onde acabo de ser absolvido”.

Boca: Em algum momento você se sentiu desolado?
DELCÍDIO – “Foram momentos difíceis (… Delcídio se emociona e seus olhos avermelham e marejam!). Eu estava igual ao Sena: correndo num Fórmula-1 a 300 km/h e de repente, num retão, colocaram um paredão de concreto. Bati!… escoriações por todos os lados, mas não morri, mas ainda estou me recuperando lentamente. Não está sendo fácil, mas já foi pior.. A sensação é de solidão. Você vira, em questão de horas, um pária da sociedade. Restou-me a família e os poucos amigos. Devo muito a superação graças à religião. Quero deixar registrado o importante papel de todos, principalmente dos evangélicos. Não me faltaram palavras de estímulos, esperanças e carinho vindas das premissas de Deus. Isso jamais esquecerei. Hoje sou um soldado daqueles que me estenderam a mão”.

Boca: O que mais lhe fez falta?
DELCÍDIO – “O contato que eu tinha com o povo e que me foi roubado assim tão abruptamente. No ‘chão’ sempre fui insuperável. Gosto do cheiro do povo, de abraçar verdadeiramente e trabalhar para que tenhamos um país melhor. De repente eu não era mais ninguém… vejam que loucura!”.

Boca: Como você tomou conhecimento da sua absolvição?
DELCÍDIO – “Eu estava apartando gado no meio do Pantanal, na fazenda onde minha mãe vive. Estávamos sem comunicação. O mundo já sabia da minha absolvição e só à noite, quando fui a Corumbá foi que tomei conhecimento. Imagine a festa, a alegria que invadiu meu coração, minha alma e o meu espírito. Foi a maior absolvição que se pode conseguir na justiça. Foi tão forte que nem o Ministério Público pode dela recorrer. A sentença é absolutamente impecável. O juiz concluiu que ‘fiz tudo de boa-fé’ e reconheceu que estavam me extorquindo, além da gravação ilegal, absurda e inconsequente. O castelo jurídico montado ruiu diante do juiz que julgou meu processo”.

Boca: O Brasil está diante de uma quase insegurança jurídica?
DELCÍDIO – “Vejo e sinto isso tudo com muita preocupação. Criamos no Brasil esse ambiente de insegurança jurídica. Isso pode ser notado em conversas com pessoas geradoras de empregos. Hoje são 13 milhões de desempregados. O emprego e o trabalho é o que dignifica e honra o homem. Há um total desequilíbrio entre os poderes. Democracia só funciona se houve equilíbrio entre o Executivo, Legislativo e o Judiciário harmônicos entre si. As distorções atuais são perigosíssimas para o país e nossa sociedade poderá pagar caro por isso”.

Boca: Por que isso está acontecendo?
DELCÍDIO – “Tropicalizamos a Lei 12.850 que nada mais é que a cópia de uma lei norte-americana. Enquanto nos EUA o empresário que comete algum crime paga pelo erro, mas suas empresas são preservadas, aqui destroem o empresário e a empresa. Há uma previsão que nos próximos 8 a 10 anos o Brasil deverá andar de lado. A criminalização da classe política é outra vertente. Nenhum país vira sem política, como também deixa de existir se não tiver um executivo e um judiciário funcionando. A destruição que começou no legislativo entrou no executivo e agora já está entrando no judiciário”.

Boca: Você vai voltar à política?
DELCÍDIO – “Vou porque fui absolvido. Fui eleito com 828 mil votos em um colégio eleitoral onde votaram 1,2 milhão de eleitores. Tenho o direito e o dever de me resgatar politicamente, tive meu mandato legítimo roubado. Fui acusado de forma injusta e hoje estou absolvido. Minha cassação foi um ‘fuzilamento’ sem direito à defesa, isso em plena democracia. É tudo muito grave. Em 13 anos de Senado nunca vi alguém agir assim, tão à margem da lei como agiu Renan Calheiros. Ele condicionou: Se não me cassassem ele não colocaria em votação o impeachment da ex-presidente Dilma. Mas o bem venceu o mal e aqui estou prontinho para buscar de volta os meus direitos políticos em respeito ao meu eleitorado. Mesmo não sendo candidato nesta eleição estarei no palanque apoiando candidatos. A população sabe que fui injustiçado e o povo reconhece que me roubaram o mandato”.

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