‘Celulares não paravam’, diz coronel sobre acidente na Mogi-Bertioga

Uma semana após o acidente que matou 18 pessoas na Rodovia Mogi-Bertioga, a mesma equipe de bombeiros que atuou no resgate está em plantão no 17º Grupamento do Corpo de Bombeiros de Mogi das Cruzes. Entre as lembranças que continuam vivas na memória do grupo está o som dos celulares das vítimas, que de acordo com o tenente-coronel Jean Carlos de Araújo Leite não paravam de tocar, apesar do sinal ruim na serra.

“Cheguei no local do acidente por  volta da 0h15 e muitos celulares tocavam dentro dos bolsos das vítimas que já estavam sem vida. Em alguns aparelhos era possível ver que havia muitos registros de chamadas. Só que a gente procura não atender porque é complicado dar uma notícia sem saber quem está do outro lado da linha. Existem equipes preparadas para fazer esse tipo de atendimento”, lembra.

O G1 esteve no grupamento na tarde desta terça-feira (14). De acordo com Leite, o acidente foi o mais grave da história do grupamento, que foi criado há quatro anos. O motorista do ônibus perdeu o controle em uma curva na noite de quarta-feira (8). No km 84 da rodovia, o veículo bateu em um barranco, tombou e caiu em uma valeta. O fretado levava estudantes de duas universidades de Mogi das Cruzes para a casa, no litoral.

Sargento Amarilson trabalhou no acidente da Mogi-Bertioga (Foto: Cristina Requena/G1)Sargento Amarilson trabalhou no acidente da
Mogi-Bertioga (Foto: Cristina Requena/G1)
Sargento Antônio Carlos do 17° GB de Mogi das Cruzes (Foto: Cristina Requena/G1)Sargento Antônio Carlos, tem uma filha que é
universitária e se sensibilizou (Foto: Cristina Re-
quena/G1)

“Não me lembro de outra com um número tão grande de mortos na Mogi-Bertioga. O trabalho todo terminou por volta das 6h e foi preciso muito cuidado para que as equipes trabalhassem embaixo do ônibus e retirassem os corpos do local”, contou o tenente-coronel.

As lembranças ainda estão vivas na memória dos bombeiros. Entre os bombeiros que atuaram diretamente no atendimento às vítimas está o sargento Amarilson de Jesus Lopes.

Há 28 anos na Polícia Militar, em 13 no Corpo de Bombeiros, ele conta que o acidente na Mogi-Bertioga foi uma das ocorrências que mais o marcou. “O que nós vimos quando chegamos lá foram jovens em um ônibus, pessoas que buscam algum objetivo na vida. A gente se sensibiliza, fica sentido, mas naquele momento é preciso esquecer e agir com profissionalismo”.

O também sargento AntônioA Carlos Pinto conta que ficou sensibilizado. Ele tem uma filha que é estudante do curso de fisioterapira da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Dezesseis alunos da instituição estão entre os mortos. “A hora que eu cheguei lá vi que eram estudantes da faculdade, lembrei que desde que minha filha entrou na faculdade, fala que tem muitos conhecidos que moram no litoral. Eu pensei que pudesse ter algum colega da minha filha entre as vítimas”.

Vítimas de acidente na Mogi-Bertioga (Foto: Arte/ G1)

Felizmente, o sargento Antônio Carlos Pinto soube na manhã da quinta-feira (9) que a filha não tinha amigos no ônibus. “Como era semana de prova, os alunos fizeram uma troca e dividiram a sala para fazer prova. Os cinco amigos dela, que poderiam estar nesse ônibus, não foram para a faculdade naquela noite porque fariam prova em outro dia. Isso mexe com a gente”.

Após o atendimento dos sobreviventes, o tenente-coronel lembra que os trabalhos foram concentrados na retirada dos corpos presos às ferragens. “Depois de todo o atendimento e encaminhamento dos sobreviventes para hospitais, restou então a retirada dos corpos que estavam entre os bancos, nas ferragens. O próprio local era meio complicado, tinha uma espécie de valeta, escavada em pedra, onde passa um córrego, e o ônibus ficou quase que capotado ali. Nós fizemos a estabilização do coletivo com uma viatura do salvamento especial. Basicamente amarramos o ônibus e travamos o veículo para que a equipe trabalhasse embaixo sem qualquer risco do ônibus se movimentar. E aí começou a remoção dos corpos.”

Até 2012, o Alto Tietê fazia parte do 5° Grupamento do Corpo de Bombeiros de Guarulhos. Desde então, houve a divisão. Guarulhos permanece com o 5° Grupamento. A região de Osasco ficou com o 18° Grupamento e o Alto Tietê é atendido pelo 17° Grupamento.

Tenente-coronel que comandou grupo de trabalho em acidente na Mogi-Bertioga (Foto: Cristina Requena/G1)Tenente-coronel que comandou grupo de tra-
balho em acidente na Mogi-Bertioga
(Foto: Cristina Requena/G1)

O tenente-coronel ressalta que durante as ocorrências os bombeiros precisam separar a razão da emoção. “Tenho uma filha de 24 anos, idade próxima de muitos jovens que estavam naquele ônibus. São em situações como essa que é preciso separar a razão da emoção. Se a gente não trabalha conforme o preconizado, não se consegue atender a ocorrência. Mas, é muito triste ver uma situação como essas. Você começa a pensar nas histórias que ali se interromperam, de uma forma grave, uma vida que ali se arrebentou. Eram jovens que estavam na faculdade e tinham uma perspectiva de vida, de progresso, e a coisa acaba ali. Isso entristece bastante, mas trabalhamos firme no propósito, até mesmo para dar uma resposta para as famílias. A gente está lá sem rosto, com a obrigação de desemprenhar a nossa função”.

Acidente Mogi-Bertioga mapa (Foto: Arte/ G1)Acidente Mogi-Bertioga mapa (Foto: Arte/ G1)

Leite conta ainda que, em situações como essa, dentro da sede do Corpo de Bombeiros, a história sempre é relembrada. “É um caso bastante chocante e os comentários persistem por mais tempo. Não é uma coisa normal, é uma coisa que, infelizmente, a gente aprende a conviver. Os anos de trabalho e a experiência vão ajudando a administrar tudo isso.”
Segundo acidente
Durante o atendimento, outro acidente aconteceu no km 84 da Rodovia Mogi-Bertioga. Um caminhão desgovernado atingiu uma das viaturas do 17° Grupamento de Mogi das Cruzes. O veículo atingido tinha sido usado pelo tenente-coronel para ir até o local. Já havia se passado mais de quatro horas do capotamento do fretado, quando o barulho do impacto foi ouvido.

Leite explica que as viaturas que são deslocadas e não atuam diretamente na ocorrência são estacionadas de forma a proteger a área do acidente. Por isso, após o motorista do caminhão perder o controle, atingiu um guincho do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), em seguida a viatura do Corpo de Bombeiros, e só parou depois de encostar em uma viatura de incêndio.

“Se a viatura menor não estivesse ali, o caminhão iria bater na viatura de incêndio, onde tinha um motorista. Eu estava muito próximo da viatura, pois já tinha terminado minhas tarefas. Estava voltando para a viatura quando escutei o barulho do impacto e a gritaria. A viatura ainda foi arrastada por cinco metros quando ficou comprimida entre o guincho e a viatura de incêndio”. O motorista do caminhão não ficou ferido.

Homenagens
Parentes e amigos participaram de duas missas em homenagem às vítimas em São Sebastião na noite desta terça-feira (14). Em Mogi das Cruzes, as aulas nas universidades foram retomadas nesta segunda-feira, após o luto. Os estudantes da UMC, onde estudava a maioria das vítimas, fizeram uma oração antes de entrar na aula.
Parte deles mora no litoral e teve que enfrentar a viagem do fretado pela Rodovia Mogi-Bertioga pela primeira vez após o acidente. Para a estudante de psicologia Ingrid Gerônimo, há mais um motivo para concluir a graduação. “Qualquer freada a gente já segurava no banco, assusta muito. Eu vou continuar estudando porque não é só um sonho meu. É deles também que se foram. É um dever da gente.”Homenagens
Parentes e amigos participaram de duas missas em homenagem às vítimas em São Sebastião na noite desta terça-feira (14). Em Mogi das Cruzes, as aulas nas universidades foram retomadas nesta segunda-feira, após o luto. Os estudantes da UMC, onde estudava a maioria das vítimas, fizeram uma oração antes de entrar na aula.

A Universidade de Mogi das Cruzes afirmou que passou a oferecer apoio psicológico às família e aos amigos das vítimas, além de outros serviços.

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