Macaúba é aposta para gerar energia e renda no Nordeste

Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) também pode atender o mercado de agroenergia, conferindo ainda mais sustentabilidade ao setor e gerando renda para a agricultura familiar. No Nordeste brasileiro, a Embrapa e o World Agroforestry Centre (Icraf) estão estudando o cultivo da macaúba em consórcio com grãos e leguminosas para obter, na mesma área, alimentos e matéria-prima de qualidade para biocombustíveis. Também a pecuária poderá ser inserida no sistema.

Os experimentos estão em dois locais: em Parnaíba, no Piauí, região litorânea; e em Barbalha, no Ceará, bem no interior do Nordeste. A macaúba é o componente desse sistema agroflorestal com potencial para integrar a cadeia produtiva de biocombustíveis. A palmeira, nativa do Brasil, gera frutos com volume de óleo comparável ao do dendê, que é campeão em produtividade.  Esse óleo pode atender à produção de dois combustíveis de origem renovável: o biodiesel, já presente no Brasil, e o bioquerosene de aviação, um produto ainda em consolidação, com grande potencial de mercado.

O projeto da Embrapa desenvolvido no Nordeste brasileiro está inserido em um programa internacional para desenvolvimento de cultivos alternativos para produção de biocombustíveis, com ações também na África e na Ásia. As ações são lideradas pelo Icraf, com financiamento do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Ifad). Aqui no Brasil, a Embrapa conta, para a realização do projeto, com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Agrário, na esfera federal, o Instituto Federal, Emater, e Secretaria de Desenvolvimento Agrário do estado do Ceará, além da interação com comunidades extrativistas locais.

Durante evento no Brasil em que foi assinado o acordo de cooperação com a Embrapa, em 2014, o representante do Ifad, Shantanu Mathur, explicou porque a instituição está investindo na produção de matérias-primas para biocombustíveis: “Em quatro décadas trabalhando para a redução da pobreza, descobrimos que a produção de alimentos sozinha não é suficiente”.

Para o pesquisador da Embrapa Agroenergia Alexandre Cardoso, líder do projeto, estabelecer esse sistema de produção agroflorestal teria como pontos favoráveis a diversificação e a regionalização da produção de biomassa para biocombustíveis, contando com uma espécie nativa, com ampla adaptabilidade em diferentes regiões.

Outro fator importante é o incremento da renda de comunidades locais. “A gente sabe que o extrativismo é importante para dar oportunidade de trabalho e renda, mesmo que temporariamente, para algumas populações. Mas, geralmente, o produto extrativista tem pouco valor agregado e, por isso, é pouco valorizado. Então, as pessoas trabalham muito e recebem pouco”, observa o pesquisador Humberto Umbelino de Sousa, da Embrapa Meio-Norte. Ele acredita que, com o cultivo da macaúba, possa ser organizada uma cadeia produtiva que melhore as práticas de obtenção e processamento da matéria-prima, dando origem a produtos com mais qualidade, que resultem em maior renda para os produtores.

DOMESTICAÇÃO

A palmeira, contudo, ainda é uma planta em processo de domesticação, ou seja, há carência de conhecimento sobre a espécie e informações limitadas sobre tecnologias para plantio, adubação, combate a pragas e doenças, colheita. Para dar respostas com embasamento científico para essas questões, os pesquisadores da Embrapa estão conduzindo três experimentos em Barbalha/CE e Parnaíba/PI.

O primeiro deles avalia justamente a eficiência de sistemas agroflorestais com a palmeira. Os cultivos começaram há dois anos e, enquanto esperam a macaúba dar os primeiros frutos, os pesquisadores já avaliam a produção de feijão-caupi e milho entre as fileiras de mudas da palmeira. Com duas safras colhidas, já se observou que não há efeitos negativos de uma cultura sobre a outra. No campo de Parnaíba/PI, a média de colheita anual tem sido de 1.100 quilos por hectare para o feijão e de 2.500 quilos por hectare para o milho. Sousa avalia que a produtividade é satisfatória, considerando as variedades e tratos culturais utilizados. No caso do milho, a equipe escolheu uma variedade rústica, com condições de produção próximas às que a comunidade local está acostumada e adequada para as condições de cultivo da região. Quando a macaúba já estiver com porte alto, também poderá ser testada na área a criação de animais. A planta dá sombra, proporcionando conforto térmico, e pode ter algumas partes do fruto utilizadas como ração para os bois, cabritos etc.

O segundo experimento avalia plantas originadas de diferentes regiões em Minas Gerais e do Ceará, com o objetivo de identificar quais seriam mais adequadas para cultivo no Nordeste. O pesquisador Bruno Galvêas Laviola, da Embrapa Agroenergia, explica que não necessariamente as plantas originárias de determinada região são as melhores escolhas para plantios comerciais naquela área. “Genótipos de outros locais podem responder melhor ao fornecimento de nutrientes, água, controle de pragas; por isso, é importante esse tipo de avaliação”, explica.

Por fim, no terceiro experimento, a equipe da Embrapa está testando diferentes combinações de doses de fertilizantes e necessidade de irrigação, buscando identificar a mais vantajosa para o produtor.  Os primeiros resultados das avaliações nesse experimento foram apresentados no 6º Congresso Brasileiro de Biodiesel e apontam a eficiência da adubação com NPK na proporção de 137% nos dois primeiros anos do cultivo, independente do uso de irrigação.

“Estamos bastante satisfeitos com o progresso alcançado até o momento”, diz Rodrigo Cianella, do Programa de Biocombustíveis do Icraf. “Temos a consciência de que este é um investimento em pesquisa com retorno principalmente a médio e longo prazos, já que depende da avaliaçāo constante de árvores plantadas há apenas dois anos. Já é possível notar, no entanto, avanços relevantes do projeto”, completa. Cardoso, da Embrapa Agroenergia, concorda: “São ações de longa duração, que podem fornecer subsídios para uma diversificação da cadeia de produção de óleo e outros produtos no Nordeste”.

Na região de Parnaíba, onde estão instalados os experimentos no Piauí, a macaúba ainda não é uma cultura presente. Contudo, a região é uma área favorável à expansão do cultivo, que tem como atrativo as média anuais de chuva superiores a 1.000 milimetos. “A gente entende que essa seria uma região para expansão da macaúba como cultivo e não como extrativismo”, diz o pesquisador Souza, da Embrapa Meio-Norte.

INTEGRAÇÃO COM A COMUNIDADE

Já na região do Cariri cearense, onde também há experimentos do projeto, os maciços de macaúba são fonte de renda para as comunidades locais, que também exploram de forma extrativista o babaçu. Contudo, o retorno financeiro dessa atividade é muito baixo. O resultado da coleta é predominantemente vendido in natura, sem nenhum valor agregado, para ser comercializada nos estados da Bahia e Maranhão, principalmente.

Quando processam os frutos, as cascas, a polpa e o endocarpo são descartados; apenas a amêndoa é aproveitada, para extração do óleo, que é vendido principalmente como iguaria para os romeiros de Juazeiro do Norte. Contudo, até mesmo esse óleo tem o rendimento e qualidade comprometidos, pois que é obtido pelo cozimento das castanhas. “É um trabalho penoso, à beira do fogo”, observa o analista da Embrapa Algodão Luiz de Gonzaga Castro Veras.

Com recursos do projeto, um equipamento de uma dessas comunidades foi adaptado para extração do óleo por prensagem. Trata-se da Comunidade Boa Esperança, com 93 associados, a maioria mulheres. O novo recurso permite obter óleo com melhor qualidade, por um método menos laboroso. Veras conta que o produto obtido pelo método tradicional de cozimento é escuro e tem cheiro de queimado. “Agora, com a prensagem, eles obtêm um produto límpido, transparente, com cheiro de macaúba”. Segundo o analista da Embrapa, o litro do óleo escuro é comercializado por até R$ 30; pelo produto claro, com melhor qualidade, os extrativistas conseguem R$ 40.

Outra vantagem: o que sobrava da amêndoa no cozimento podia, quando muito, ser oferecido para os animais – desde que no mesmo dia, pois estragava rapidamente. Agora, da prensagem sobra uma torta com maior durabilidade, que pode ser utilizada inclusive para alimentação humana. Esse material está sendo alvo de trabalho de pesquisa em nutrição animal, no Instituto Federal do Ceará – IFC, sob a liderança do professor Gauberto Barros.

Em fevereiro, um seminário promovido pela Secretaria de Desenvolvimento Agrário e o Instituto Federal do Ceará, com co-organização da Embrapa, buscou justamente divulgar para as comunidades as possibilidades de uso da macaúba, tanto como produto quanto como alimento. A pesquisadora Simone Favaro, da Embrapa Agroenergia, mostrou que a polpa do fruto, muitas vezes desprezada, é fonte de vitamina A, entre outros nutrientes. A torta da amêndoa é outro produto rico. Os participantes do evento foram para a cozinha e preparam, junto com a pesquisadora, bolos, cookies e outros pratos com macaúba. Veras diz que, agora, os próprios agricultores estão criando receitas. Ele acredita que em breve, esses pratos também estarão nas feiras da região.

Além da Embrapa Agroenergia, Algodão e Meio-Norte, também contribui para o projeto a Embrapa Cerrados, cujo banco ativo de germoplasma de macaúba tem sido utilizado principalmente para suporte aos trabalhos com processamento dos frutos.

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