Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – Médico Cardiologista

CARAVANA “É” DEMAGOGIA

ALFREDO PINTO DE ARRUDA (74): Médico Cardiologista, formado na Escola Nacional de Medicina da Praia Vermelha-Rio de Janeiro. Pioneiro da Cardiologia em nosso Estado, passou por vários e importantes cargos na Capital e no Estado, tendo sido Secretário de Saúde e Chefe de Gabinete do Governo do Dr. Pedro Pedrossian, Fundador do PRONCOR, conversou na tarde de sexta-feira com o Jor. B. de Paula Filho a respeito de um seu artigo publicado em vários jornais, Blogs e que serviu de base para um editorial no programa BOCA DO POVO da DIFUSORA-FM 101.9 durante a semana, versando sobre a insensatez da ‘Caravana da Saúde’.

*Por B. de Paula Filho

Boca: Por que os outros médicos nunca escreveram um artigo, e nunca se posicionaram claramente contra a tal ‘Caravana da Saúde’ do Governo do Estado?
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “É difícil dizer por que os outros médicos não falaram publicamente sobre isso. Realmente não sei. Eu, por exemplo, já falei três vezes sobre o assunto em jornais. Fala-se sobre isso entre os médicos, mas a conversa fica restrita e não sai em público”.

Boca: Por que a “Caravana” não funciona?
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Não se pode marcar ‘data’ para doença. A doença deve ser atendida quando existir e aparecer. O Sistema de Saúde não tem que estar ‘procurando’ doentes, mas precisa ser colocado à disposição para que, quem se sentir doente o procure. Essa disposição ao doente tem que ter nome e endereço, lugar fixo e à disposição. Tem que haver uma rotina própria, médicos competentes e à disposição. Aí o doente será atendido”.

Boca: O imediatismo das ‘Caravanas’ preocupa?
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Doença alguma pode ser tratada como se fosse uma fotografia. Doença precisa de diagnóstico e um tempo para que seja analisada. As “caravanas” não tem tempo para diagnosticar e fazer outros atos complementares que possam ‘fechar’ o raciocínio médico para saber qual o melhor caminho a ser tomado sobre aquele paciente”.

Boca: Qual o caminho a ser seguido posteriormente?
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Depois de chegar ao diagnóstico da doença o médico elabora uma proposta de tratamento. Somente então decidirá se o problema é clínico ou cirúrgico. Conhecido o rumo é estabelecido um tratamento ou uma técnica para ‘aquela’ pessoa específica. Assim, se a primeira técnica aplicada não obtiver sucesso recorre-se a outra. Por isso é necessário ter endereço fixo para que o doente possa ser trabalhado de forma a ser acompanhado pelo médico”.

Boca: A ‘Caravana’ faz um serviço estandardizado…
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Há a necessidade do doente ficar indo e voltando ao consultório para que o médico o acompanhe, e se necessário mude a rota daquilo que está sendo aplicado para que se cumpra as exigências. Há uma sequência ao acompanhamento e ao tratamento que não pode ser negligenciada”.
Boca: A falta de acompanhamento ao doente nos parece temerosa…
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Falei sobre procedimento das técnicas médicas de alto nível. Agora: Você chega num lugar e arma o circo (estrutura da Caravana). Vem o doente e você dá o remédio e ele vai embora, quebra-se a sequência sem confirmação do diagnóstico. O remédio é dado, mas não se acompanha a evolução do doente e isso cria um risco. E, todo risco tem consequências, algumas graves!”.

Boca: Tem pessoas que vão e nem estão doentes…
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “É difícil dizer se esse pessoal que é atendido corre o risco de ficar pior do que quando entrou para atendimento. A maioria do pessoal que vai à essas caravanas não são doentes, mas curiosos. Existe uma massa de curiosos na área médica que precisa ser considerada. Para se ter idéia, 60% dos pacientes que entram em consultórios são doentes cujas causas nada mais são que remédios mal tomados ou a chamada automedicação”.

Boca: O que é a Medicina para o senhor?
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Não gosto dessa ênfase que dá o jornalismo quando fala que “pacientes correm riscos…”. Sou de uma Escola conservadora. Me formei na Escola Nacional de Medicina, na Praia Vermelha – RJ, e medicina pra nós é coisa sagrada. Pra mim é mais que religião. Respeito a medicina mais que a mim mesmo. Quando vejo uma agressão ao exercício decente da medicina, não tenho medo de expor aquilo que penso e pratico”.

Boca: Parece que temem em criticar a instituição dessa tal Caravana da Saúde…
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Existe medo debaixo da revolta, afinal estamos falando de uma ação de Governo de Estado. Nos meus 74 anos, sou um homem que foi na vida tudo o que quis. É meu direito de expressar a respeito daquilo que está acontecendo. Não falo pelo prazer de criticar, mas tenho a expectativa que o pessoal abra a cabeça e pense melhor antes de tomar certas atitudes. Enfim, que melhorem a conduta da saúde”.
Boca: O que o senhor, se pudesse, diria ao Governador?
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Estou rezando para que o Governador se conscientize a pare de fazer o que está fazendo. É o que muito me alegraria a respeito de como deve ser tocada a saúde em nosso estado. Pela minha ótica a Caravana não tem nenhuma motivação de saúde, mas a nítida motivação da demagogia política. Não sei o controle dos custos disso, mas temo que, por detrás disso tudo, exista algum ato de corrupção”.

Boca: Pode acontecer os mesmos fatos da primeira Cavarana?
Dr. ALFREDO PINTO DE ARRUDA – “Pode acontecer tudo aquilo que aconteceu e não deu certo na primeira caravana que fizeram. A técnica é a mesma, o sistema e a metodologia são os mesmos, portanto, tudo pode se repetir”.

Já disse em meu artigo que “sou contra o que estão fazendo”. Não vou dizer que outros podem até olhar para um Mutirão de saúde de forma diferente, mas a minha opinião está claramente expressa no artigo que escrevi e mandei publicar.

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