DELCIDIO DO AMARAL (EX-SENADOR DA REPÚBLICA)

“EU VOLTEI!”

DELCÍDIO DO AMARAL GOMES (64): Engenheiro, ex-senador da República; ex-ministro de Minas e Energias no governo de Itamar Franco. Foi líder no Senado pelo PT. Atualmente é filiado ao Partido Trabalhista Cristão (PTC), mas poderá migrar para outro partido e está sendo sondado pelo PTB. Participou da construção e montagem da Usina de Tucuruí, (Pará) e foi diretor da Petrobras no governo FHC. Na quarta-feira (03/07) foi inocentado de todas as acusações que pesavam contra ele e que motivaram erroneamente sua cassação no Senado. De alma lavada ele concedeu sua primeira entrevista nessa volta triunfal ao programa “Boca do Povo” da Difusora/FM 101.9 aos jornalistas B. de Paula Filho e Sérgio Cruz.

*Por B de Paula Filho

Boca: Acusado erroneamente você perdeu o cargo. Nesses mais de 3 anos, sofreu para provar sua inocência que foi reconhecida em um julgamento que durou menos de 10 minutos no STF. Armaram contra você um “Ai, Jesus”. E agora?
DELCIDIO DO AMARAL – “Recebi o veredicto final com tranquilidade, mas me assola o sentimento de perda. Duvido que alguém apresente qualquer recurso, especialmente por ter sido inocentado por unanimidade. Sofri muito nesses 3,8 anos, pasma-me que em menos de 10 minutos reconheceram todas as minhas razões. O que fizeram comigo foi uma aberração, fruto de um momento que viveu este país. Apelo e invoco a frase de Nietzche “O inimigo da verdade não é a mentira e sim, a convicção”. O Brasil de hoje precisa atendar bastante para essa suposta convicção de alguns, pois casos como o meu podem se repetir com outras pessoas. Precisamos atentar e dar uma atenção especial para não se repetir o que aconteceu comigo. Não é a verdade contra a mentira, mas a verdade contra uma “convicção”.

Boca: Estamos vivendo um período de transição onde se contestam operações como a Lava-Jato e todas as demais operações feitas na base da “convicção”. Qual a sua opinião sobre essas publicações que estão saindo contra o Juiz Federal Sérgio Moro e que envolvem o Ministério Público Federal. Politicamente e juridicamente isso terá no futuro alguma importância?
DELCIDIO DO AMARAL – “Tudo isso é muito preocupante. Aparentemente é um manancial de informações consideráveis. Se buscaram essas informações e adulteraram – espero que isto tenha acontecido – vão haver consequências. Mas se o que estiver sendo publicado tem fundamento vamos ter uma série de consequências que nem quero imaginar. Isso refletirá sob o ponto de vista jurídico e político. Conversei recentemente com alguns jornalistas da Veja, da Folha de São Paulo, e todos estão debruçados analisando essas informações de troca de mensagens e diálogos que foram mantidos. A situação é extremamente preocupante, não tenho dúvidas e trarão consequências políticas e jurídicas”.

Boca: A responsabilização de juízes e promotores sobre o excesso que eles porventura fizerem ou causarem daqui pra frente como soa para o senhor?.
DELCIDIO DO AMARAL – “Não há dúvidas. Se analisarmos determinados casos parece não haver dúvidas de que a criação de fatos para prenderem alguém e mancharem uma biografia precisa de acabar neste País. Pau que bate em Chico também bate em Francisco, então efetivamente, há que se disciplinar tais procedimentos. As regras precisam ser claras e procedimentos precisam de ter responsáveis e responsabilidades. O Brasil está sofrendo hoje pela hipocrisia de alguns. Não podemos ser hipócritas. A vida do povo brasileiro tem que ser pautada pela nossa Constituição. Gostando ou não essas regras estão positivadas saídas de dentro do Congresso Nacional. Qualquer atitude no sentido de desrespeitar essas regras trata-se de blasfêmia. O estrago que estão fazendo ao nosso Brasil é muito forte. Disse em depoimento o Sr. Johnny Saad, dono da Band, que a Lei nº 12.850 é cópia da lei norte-americana, só que lá, se um empresário é acusado de corrupção, paga multa, mas não acabam as empresas e nem os empregos. Aqui no Brasil o empresário comete um erro, paga por isso e matam os empregos e as empresas. É um arrasa quarteirão. Imaginem quanto o Brasil perdeu nesses três e quatro anos. Dizem que arrecadaram 13 bilhões aos cofres públicos. Não estou defendendo ninguém e nem inocentando ninguém, mas agora tenho legitimidade para falar com base naquilo que aconteceu comigo: Precisamos punir, mas conservar as empresas e os empregos. Isso é seguir a fórmula norte-americana que dá certo”.

Boca: Você em algum momento se sentiu roubado?.
DELCIDIO DO AMARAL – “Absolutamente. Apesar do prejuízo que tive e que foi imensurável, sempre levei uma vida organizada. Da noite para o dia as minhas coisas se complicaram, os amigos sumiram, os cartões e o crédito se foram, etc. O que mais me afetou foi ver minha família sendo covardemente atingida porque eu era uma pessoa publica. Sofri por ver meus entes queridos sofrerem sem ter nada a ver com aquilo que eu era naquele momento. Isso provocou em mim uma revolta, um sentimento de impotência e um sofrimento inenarrável e me senti só o tempo todo”.

Boca: Você está escrevendo um livro?
DELCIDIO DO AMARAL – “Sim! Já venho trabalhando nisso há um bom tempo, inclusive quando fico na fazenda, naqueles momentos de solidão, em meio ao bucolismo pantaneiro, escrevo meus sentimentos. Vai ser um livro de arrombar, pois é um relato da minha trajetória com “pitadas” fortes do período que fui político. Evidentemente, isto não significa que eu não volte para a vida pública, mas foco o livro no período que tive a honra de representar o meu povo como Senador da República”.

Boca: Chegou a chorar nos momentos de solidão?
DELCIDIO DO AMARAL – “Muitas vezes, entre amigos e sozinhos. Olhei para minha família em muitos instantes e me sentia responsável pelo drama que todos estavam passando, podendo afirmar categoricamente que me fez falta e, ainda hoje, faz-me falta aquele contato com o povo, mas vou superar tudo isso e retornar à ativa. Prometo”.

Boca: Algo mais?
DELCÍDIO DO AMARAL – “Resta-me agradecer àqueles que sempre acreditaram e estiveram ao meu lado.
Quero agradecer a vocês da FM-101.9 e da BOCA DO POVO que sempre me trataram com carinho e a minha família. Obrigado àqueles que nos meus piores instantes nunca desistiram de mim. Deus os abençoem grandemente. Deixo aqui minha palavra de fé: “Eu voltei!”.

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